Erotização Precoce e Mídia

Julho 12, 2009 at 8:51 pm | In Biblioteca Virtual | Leave a Comment

Profa. Dra. Cláudia Bonfim*

Sabemos que a mídia cria símbolos sexuais e significações que influenciam profundamente o comportamento social, especialmente crianças e adolescentes que ainda não possuem discernimento desses “modelos” estrategicamente idealizados de forma a induzir a venda de produtos ou modelos denominados “modernos” de comportamento. E consideramos que, se a escola não se posicionar, torna-se um, dentre os mais variados cenários, dessa legitimação dos discursos da mídia (sendo esta o aparelho que legitima o discurso que a sociedade capitalista considera ideal nos dias de hoje). Desde o vestuário à fala dos personagens, as relações sexuais passam a direcionar em grande número a construção da identidade sexual das crianças e jovens, condicionados a adaptarem seus valores a partir dos “modelos” criados pela mídia.


(“Porque inocência é mais sensual do que você pensa”)
Propaganda de uma linha de cosméticos americana, dos anos 70/80. A modelo da foto é uma criança.
.

O que muitas vezes ocorre no discurso do professor e mesmo familiar é uma visível contradição, pois dentro do espaço escolar e familiar, muitos pais e professores se posicionam de forma repressora e conservadora, no entanto, no espaço social, estes também se adaptam aos modelos construídos pela mídia, o que não se configura em exemplo prático, mas tão somente numa falácia discursiva.

Através das influências da mídia, crianças e adolescentes são condicionados a construírem sua identidade social e sexual. As telenovelas, os programas televisivos, os instrumentos publicitários, entre outros, modelam o comportamento dos jovens, influenciando profundamente sua maneira de ver e agir. Além de transformar a sexualidade num produto de consumo, a mídia ainda promove a construção de compreensões diversificadas das relações do gênero, funcionando como “modelos” de condutas sexuais. Os programas de cunho religioso, especialmente veiculam discursos dogmáticos, moralizantes e normatizantes. Por outro lado, há outros programas que discutem as questões de sexualidade, padronizando o diferente, impelindo a “quebra de tabus”, onde posturas e valores de universos distintos como a questão da virgindade é considerada costume “ultrapassado” e assim, abrem espaço para novos comportamentos a serem seguidos, como a aceitação natural do homoerotismo no mesmo nível e grau do sadomasoquismo, etc.
Ou seja, a sociedade capitalista tem contribuído cada dia mais para a erotização precoce das crianças, estimulando desejos e incitando-as a iniciarem precocemente sua vivência de uma forma de praticar a sexualidade.

Na sociedade que virtualizou e mercantilizou o sexo e a sexualidade, pode-se dizer que estamos caminhando, para não afirmar que estamos vivendo, em tempos de uma sexualidade meramente instintiva, compensatória e desumanizada, sem levarmos em conta a dimensão ética.

A sociedade capitalista vê o corpo como mera força de trabalho e com a mercantilização do sexo, o corpo produtor de bens, passa a ser “ele próprio” objeto, fonte de produção capital.
Daí, a urgente necessidade de se falar de ética, buscar desenvolver valores, capacidade de discernimento, espírito crítico, reflexões face às atitudes e comportamentos sexuais que imperam na sociedade, para que os adolescentes possam compreender os riscos e perceber as consequências que terão de enfrentar, ao iniciar uma vida sexual.

Consideramos que a família tenha um papel fundamental na construção de uma ética da sexualidade, pois é através dela que surgem as primeiras aquisições valorativas da vida e da própria sexualidade, os pais não podem delegar à escola o papel que lhes cabe, a educação sexual escolar vem complementar, enriquecer, levantar questionamentos e contribuir para a formação ética e estética da sexualidade humana, mas cabe à família um diálogo aberto sobre os valores éticos e estéticos da sexualidade.

Concordamos com Guimarães (1995), que a família é a base na qual os sujeitos deveriam receber as primeiras informações referentes à sexualidade, sendo esta a primeira referência para que a criança construa sua identidade sexual e sua concepção primária de sexualidade e de cultura, identidade mais cultural do que inata. No entanto, a família condicionada pela visão histórica da sociedade não tem, em sua maioria, contribuído para a educação sexual. Muitas famílias silenciam, ignoram ou preferem ocultar a sexualidade dentro da educação de seus filhos.
A outra instituição formadora, a escola, também vive um dilema: quando não mantém um silenciamento sobre a sexualidade, tem feito um discurso empirista e superficial, ou seja, tem contribuído para consolidar o discurso moral vigente ou para mistificar o hedonismo real.

Ainda presenciamos, quando o assunto é sexualidade, especialmente em relação às questões de gênero, expressões preconceituosas, ou de “horror”, quando a escola se depara literalmente com fatos que obriguem os docentes a verem que as crianças não são assexuadas e a sexualidade está despontando nelas.
Não podemos também deixar de evidenciar que, muitas vezes, quando a escola tenta aprofundar o debate da sexualidade, esta sofre possíveis “represálias” por parte de muitos pais, ainda condicionados pela forma como foram educados e vivem sua sexualidade, consideram essas questões como “pornográficas” ou tratar dessa temática da escola incita os alunos a iniciarem uma vida sexual. Uma visão moralista e equivocada, pois a sexualidade está exposta nos mais diversos veículos de midiáticos, especialmente a internet que, lamentavelmente, traz desinformações e falsos valores, e a escola não pode ficar alheia aos problemas sociais, inclusive relacionados à sexualidade como a “gravidez precoce”, a disseminação da AIDS e demais DSTs, assim como não pode deixar de abordar a pedofilia, a violência sexual, a pornografia infantil que tem aumentado cada dia mais.

Mesmo diante de questões tão graves e urgentes como estas, sabemos que, quando o tema sexualidade é debatido na escola, muitas famílias ainda manifestam rejeição a essas informações, e a universidade ainda não inseriu nos cursos de formação de professores, disciplinas ou campos temáticos que preparem os docentes para debaterem sobre a sexualidade, buscando contribuir para a superação dessas problemáticas sociais. Sendo assim, os docentes reproduzem sua visão senso-comum sobre sexualidade, perpetuando valores, conceitos e preconceitos embutidos em sua formação, seja ela familiar ou escolar.

Nos dias de hoje, diante da velocidade de (des)informações veiculadas pela mídia, a escola torna-se inofensiva, quando, ao abordar a educação sexual, restringe a sexualidade humana apenas a um conteúdo anatômico fisiológico, como afirma Nunes (1987, s.p.):

Quando entendemos o sexo como a marca biológica, só podemos entender a sexualidade como a marca humana, e dela temos que buscar a significação existencial e social que construímos a partir e sobre a possibilidade biológica. Temos à frente crianças e adolescentes “ansiosos por saber de si”, por entender o sexo e sexualidade, de compreender suas potencialidades, de assumir-se como sujeito, capaz de amar… A afetividade é o que torna a sexualidade essencialmente humana.

A Sexualidade é fundamental e maravilhosa, mas como tudo na vida exige maturidade, responsabilidade e a hora certa para acontecer. Antecipar uma vivência sexual inclusive pode provocar traumas e frustrações que dificilmente conseguem ser superados.

Mercantilização e Banalização da Sexualidade – a importância da orientação familiar

No Brasil é cada dia maior número de gravidez na adolescência, de casos de pedofilia, de violência sexual em todas as faixas etárias. A sexualidade foi banalizada e mercantilizada, o corpo que sempre foi produto de mercantilização, desde a escravidão (que ainda se perpetua de alguma forma), pois o corpo continua sendo considerado mercadoria, força de trabalho (para produzir capital). Diante de uma sociedade capitalista em que a mídia, especialmente a TV e Internet induzem à erotização precoce, novos padrões de relacionamentos e comportamentos sexuais, não podemos mais ignorar a problemática que se desenvolve em torno da sexualidade. Entendemos que essa demanda da Educação Sexual deveria ser da família, mas muitos pais por medo de perder o respeito e a autoridade perante os filhos, ou mesmo condicionados por dogmas religiosos, ou por desconhecimento e sentirem-se constrangidos (ao qual foram condicionados em ter ou sentir) deixam de abordar o tema.

Acreditamos que a formação dos valores inclusive relativos à sexualidade deveria ocorrer inicialmente no meio familiar. Porém, a família não tem proporcionado às crianças, adolescentes e jovens a formação, o discernimento sobre a sexualidade, sendo assim, consideramos que a escola não pode agir da mesma forma, ignorando tantos problemas sociais decorrentes da falta de uma Educação Sexual emancipatória e comprometida com o bem-estar do ser humano, pois a omissão apenas contribui para agravar o problema, gerar e aumentar preconceitos.

Torna-se cada dia mais precoce a erotização do corpo da criança e do adolescente. Os pais condicionados pelo mercado consumista e pela mídia, inconscientemente expõe seus filhos à violência sexual, através da erotização precoce que o corpo de seus filhos sofrem pela maneira com que os pai permitem ou vestem os filhos. A programação da TV, as imagens veiculadas na Internet, a exposição exacerbada no corpo (especialmente o feminino) pelos meios de comunicação induzem à precocidade de desejos sexuais, pois acreditamos que o corpo sente antes mesmo de racionalizar o pensamento. Portanto, uma criança exposta à imagens eróticas pode involuntariamente e precocemente sentir desejos, o que se consolida como uma dos maiores motivos que antecipa o início de uma vida sexual ativa de nossos adolescentes, sem que se tenha maturidade corporal ou psicológica, passando muitas vezes, a viver uma sexualidade instintiva, desassociada de afetividade, de responsabilidade, de respeito com o próprio corpo e o corpo do outro.

A descoberta do corpo erótico traz para o interior da escola situações como a masturbação em sala de aula, entre outros acontecimentos relacionados à sexualidade e que a escola não está preparada para orientar. Consideramos com Belisário (1999) que quando mais escondemos algo, mais contribuímos para criar fantasias em relação a isso. Diante dessa exposição das crianças e adolescentes sofrem um erotização inconsciente do próprio pensamento, precisamos salientar que nem sempre o anseio dos alunos por mais esclarecimentos sobre sexualidade se manifesta através de questionamentos, o que exige do professor sensibilidade para ler olhares, gestos, interpretar palavras e comportamentos e saber como direcioná-los da forma mais adequada.

Orientamos que os alunos não devem ser chamados atenção na frente de outros, nunca trate de assuntos tão íntimos na frente de outros, sem expor a criança a humilhações; se não podemos controlar os pensamentos e desejos de uma pessoa, devemos orientá-los que há espaços adequados para vivermos nossos desejos, que há limites que devem ser respeitados. Os pais devem ser informados quando nos deparamos com a precocidade sexual de uma criança, para que estejam conscientes e também orientem seus filhos.

Orientamos aos pais que não deixem de dialogar com seus filhos sobre temas tão urgentes como valores, sexualidade, internet, drogas, entre outros, com receio de perder o respeito e autoridade deles. Sempre digo que o que os filhos tem que ter por nós é respeito, o que é muito diferente de ter medo; quando um filho tem medo dos pais na frente deles, o filho age como um anjo, faz tudo corretamente, porém basta que virarem costas e mudam totalmente o comportamento. Um filho que respeita os pais, age da mesma forma na frente ou longe deles. Nós pais, temos que ser os melhores amigos dos nossos filhos, ou estaremos, de certa forma, “permitindo” que eles se percam por caminhos pelos quais jamais deveriam trilhar.

*Profa. Dra. Cláudia Bonfim é Doutora em História, Filosofia e Educação (UNICAMP); Mestre em Educação, Especialista em Metodologia e Didática do Ensino, Licenciada em Biologia (UENP-FAFICOP); Pesquisadora do Grupo Paidéia UNICAMP; Vice-Presidente da Associação Brasileira de Educação Sexual (ABRADES); Professora do Curso de Pedagogia da Faculdade Dom Bosco. Assessora Especial de Gabinete da Prefeitura Municipal de Cornélio Procópio, responsável pelo Desenvolvimento e Coordenação de Projetos Especiais e Políticas Públicas para a Educação.

Fonte: Educação e Sexualidade

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